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DESONESTIDADE: Longe dos Olhos Perto do Coração.

A desonestidade é mais complexa do que a maioria das pessoas imagina. Nas famílias em que se desenrola a relação co-dependência e adicção, ser desonesto (consigo mesmo ou com os outros) é um comportamento conectado a recaídas. O fato é que trair o compromisso antes abraçado, envolve um intrincado malabarismo mental.

Para o senso comum a desonestidade é uma questão de custo-benefício envolvendo três componentes:

  • O primeiro é a probabilidade de ser ou não descoberto.

  • O segundo é a importância do que vai ser ganho como fruto da desonestidade.

  • O terceiro é a quantidade da punição decorrente de ser pego.

Baseado na mecânica do custo-benefício, teoricamente, diante de uma situação “tentadora”, indivíduo pesaria essas opções e decidiria se vale a pena ser ou não desonesto.

Uma questão inicial ao se pensar em desonestidade está relacionada a saber se ela é uma exceção ou uma regra do comportamento humano.

O pesquisador Dan Ariely tentou elucidar esta questão. Para tanto montou um experimento, que consistia em dar uma folha de papel com vinte problemas matemáticos (do tipo que todo mundo consegue resolver), mas com uma particularidade, o experimentador não disponibilizava tempo suficiente para o participante resolver. Depois de cinco minutos, avisava que a tarefa estava no fim, e que recolheria os papeis e pagaria um dólar para cada resposta correta. Nesta situação, a média de acerto ficou em 4 questões (quatro dólares). Porém, havia um detalhe, para alguns participantes ele pedia que antes de entregar, rasgassem as folhas (e aguardassem os pedaços em seus bolsos) e verbalmente enunciassem a quantidade de respostas certas (desta forma criando uma situação propícia a desonestidade). Com esta nova condição, o número passou a ser de sete acertos (sete dólares). E o que isto demonstra? Isto mostra que comportamentos extremamente desonestos não são uma regra. Por outro lado, “pequenas desonestidades” o são, em outras palavras, muitas pessoas são desonestas em pequenas medidas.

Mas afinal como pode ser medida uma grande ou uma pequena desonestidade? Na verdade, a “pequena desonestidade” é mais uma medida pessoal baseada no impacto que o comportamento terá sobre a autoimagem do indivíduo. As pessoas em recuperação não fogem a esta regra, raramente o retorno a antigos hábitos ocorre de forma instantânea. O mais comum é a existência de um processo formado por vários comportamentos que o indivíduo não identifica como totalmente desonestos.

Para testar o impacto da importância da quantidade do ganho obtido (que é uma das três premissas da teoria do custo benefício), o pesquisador resolveu desenvolver derivações de seu experimento original. Sendo assim, para algumas pessoas ele variou a quantidade de dinheiro que elas poderiam roubar. Pagou dez centavos por resposta correta, a outros pagou cinquenta centavos, para outros um dólar, cinco dólares, dez dólares, e assim por diante. Variando entre valores altos e valores baixos.Era de se esperar que à medida que a quantia de dinheiro aumentasse, as pessoas roubariam mais, mas na verdade não foi isto o que aconteceu. Ficou confirmado que muitas pessoas roubavam apenas um pouco. E quanto à probabilidade de ser pego? Durante os experimentos algumas pessoas destruíam metade da folha de papel, de tal forma que sobrava alguma evidência. Outras pessoas destruíam toda a folha de papel. Algumas pessoas destruíam toda a folha, saíam da sala, e pegavam o dinheiro de um pote com mais de cem dólares. Seria esperado que à medida que a probabilidade de ser pego diminuísse, as pessoas roubariam mais. De novo, muitas pessoas trapacearam, mas apenas por pouco dinheiro, e elas demonstraram ser insensíveis a esses incentivos econômicos.Então, se as pessoas são indiferentes aos estímulos da teoria do “custo benefício”, o que poderia estar acontecendo? ” Segundo o pesquisador, o que existe é a convergência entre duas forças. Por um lado, o indivíduo quer olhar para si mesmo e se sentir bem. Pois não é confortável se ver como desonesto. Por outro lado, é aceitável ser somente um “pouco desonesto”, sem comprometer a autoimagem de honesto. Então, é presumível que a recuperação passe a existir quando de fato a pessoa crie uma autoimagem de recuperação. Consequentemente, quando colocado para decidir diante de uma situação “tentadora”, se o comportamento escolhido estiver alinhado a esta autoimagem a pessoa se sente honesta. O que acontece com os adictos e suas famílias é que diante de determinadas situações “tentadoras”, a auto cobrança para se sentir honesto entra em conflito com o desejo de se beneficiar do fruto do comportamento desonesto. É claro que isto produz uma pressão que necessita de um malabarismo mental (auto manipulação), uma espécie de meio termo entre ser ou não honesto em relação a sua autoimagem de “indivíduo em recuperação”. A pergunta agora é, como fazer para diminuir a auto manipulação? Para tanto, Dan Ariely elaborou um experimento em que era proposto duas tarefas. Primeiro, foi solicitado que as pessoas escolhessem entre, se lembrar de dez livros que leram na escola, ou se lembrar dos Dez Mandamentos (isto cria uma indução a desonestidade). Como resultado, as pessoas que optaram por se lembrar dos Dez Mandamentos, apesar da oportunidade de serem desonestos, não o foram. Não porque elas necessariamente fossem mais religiosas (afinal nenhum dos participantes que optaram, conseguiu se lembrar de todos os dez mandamentos), isto também exclui a interpretação de “quem conhece mais os Dez mandamentos é mais honesto”. O que se pode inferir é que, simplesmente, no momento em que as pessoas optaram e começaram a se esforçar para lembrar dos Dez Mandamentos, elas pararam de se auto manipular e consequentemente não produziram comportamentos desonestos. Isto foi confirmado em outro experimento realizado com ateus. Também em experimentos se utilizando de juramento sobre a bíblia. E em outro em que os participantes assinavam um documento declarando “Eu entendo que esta curta pesquisa se insere no Código de Honra do MIT” (Massachusetts Institute of Technology ), que depois era rasgada pelos próprios participantes. E todos estes experimentos, mesmo sendo proporcionada a oportunidade de ser desonesto, as pessoas não se manipulavam para tanto. O que se pode deduzir disto tudo, é que as pessoas superam as “tentações da desonestidade” quando estão conectadas mental e emocionalmente com algum código de honra, mesmo que este não seja escrito. (O interessante é que o MIT não possui código de honra). Então, supõe-se que estar ligado a um código de honra pode diminuir a auto manipulação para a recaída de comportamentos de uso de substancias e codependencia. Mas afinal qual ou quais fatores estão envolvidos na ampliação da auto manipulação e consequente desonestidade? Em uma experiência realizada no campus universitário do MIT, foram distribuídas garrafas de Coca-Cola nas geladeiras comunitárias (estas geladeiras são usadas pelos estudantes de graduação). Depois de um curto período de tempo, como era de se esperar, os refrigerantes foram sumindo. Estes alunos tomavam os refrigerantes mesmo sabendo que não eram seus. Em contraste, nas mesmas geladeiras, foram colocados pratos com seis notas de um dólar. Estas notas nunca desapareceram.Em outro experimento, que é uma derivação do primeiro deste artigo foram distribuídas folhas de papel com cálculos fáceis limitados pela pouca disponibilidade tempo para resolve-las. Para um terço dos participantes foi solicitado que entregassem as folhas as quais seriam corrigidas pelos examinadores que que por sua vez pagariam imediatamente o valor correspondente. Para outro terço foi solicitado que as pessoas destruíssem as folhas e falassem quantas questões elas acertaram e o valor correspondente que seria pago imediatamente. E para o terço restante, foi solicitado que rasgassem as folhas, relatassem verbalmente o número de questões e o valor correspondente, mas com uma diferença, estes seriam pagos com fichas que poderiam posteriormente serem trocados por dinheiro. O resultado desse experimento é que as pessoas que recebiam em fichas dobraram seus comportamentos desonestos. Portanto, tanto a experiência das coca-colas quanto a das perguntas, revelam em seus resultados outro fator associado a desonestidade. O distanciamento do objeto da desonestidade. Quanto mais indireta for a relação com o objeto da desonestidade maior a auto manipulação e consequentemente maior o comportamento desonesto. Numa variação do mesmo experimento acima, foi inserido dois componentes novos. O primeiro era a presença de um estudante ator (os outros do grupo não sabiam que ele era um ator). O segundo era que cada metade do grupo pertencia a uma universidade diferente (respectivamente Universidade de Pittsburgh e Carnegie Mellon). No experimento, Depois de 30 segundos o estudante ator se levantava, e dizia, “Eu resolvi tudo. O que faço agora? ” E o pesquisador respondia, “Se você acertou todas as questões, pegue o dinheiro (referente ao total) vá para casa. ” É claro que todos os outros do grupo sabiam que ele estava trapaceando, pois ninguém por melhor que seja conseguiria resolver corretamente todas as questões em tão pouco tempo. Qual seria a influência que esta informação traria para o nível de auto manipulação das outras pessoas do grupo? Eis o que acontece. Quando o estudante ator estava usando a camisa de uma universidade, os da mesma universidade aumentavam seus níveis de auto manipulação, e a desonestidade aumentava consideravelmente neste grupo. Entretanto e concomitantemente os que eram da outra universidade diminuíam suas auto manipulações e consequentemente seus comportamentos desonestos.Isto é importante, porque, quando o estudante ator se levantou, os indivíduos do grupo foram induzidos a pensar que poderiam ser desonestos e ficar impunes. Então, de novo o que estava em jogo não era somente a probabilidade de ser pego. Era sobre as regras da trapaça. Se alguém do mesmo grupo passa a informação de comportamento desonesto, o sentimento geral é de que é mais apropriado fazer o mesmo. Por outro lado, se é alguém de outro grupo, com quem os membros não possuem identificação ou associação, a honestidade das pessoas aumenta.Finalmente, como as experiências de Dan Ariely, sobre desonestidade, podem ser úteis na recuperação:Em primeiro lugar, sabemos que a desonestidade é um comportamento comum aos seres humanos, mas nas pessoas em recuperação podem ter consequências mais graves;Também sabemos que o tipo de desonestidade mais usual é a “pequena”. Todavia, para se conseguir produzir desonestidade de “menores tamanhos”, são necessárias maiores quantidades de auto manipulação. A conexão com valores morais, diminui a auto manipulação. As pessoas para serem honestas com suas recuperações, necessitam estarem conectadas a valores que ultrapassem a elas mesmas.As pessoas estariam mais protegidas das recaídas se o comportamento desonesto estiver sem intermediações. Por exemplo um comportamento facilitador que o pai evita, mas que faz “vista grossa” para que a mãe tenha o mesmo comportamento. Ou o adicto que não toma iniciativa para se comunicar com pessoas que usam, mas ao mesmo tempo não fecha estes canais de comunicação. Estas formas indiretas de desonestidade são mais enganosas do que as diretas. Quando as pessoas em recuperação tomam uma distância maior do objeto final da desonestidade, elas protegem sua auto imagem e passam a se auto manipularem mais. O resultado é mais desonestidade. Sabemos que os grupos (pode ser grupo de amigos, grupos anônimos, grupo familiar...) que tem maior tolerância com a desonestidade promovem uma influência na quantidade de auto manipulação. O indivíduo que desenvolve um sentimento de pertencimento com estes grupos, tendem a ajustar sua honestidade ao padrão existente no grupo. Este artigo foi baseado no trabalho de Dan Ariely, americano de origem israelense. Professor de psicologia e economia comportamental na Universidade de Duke. Seu trabalho tem como foco as falhas dos códigos morais humanos.


 
 
 

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