EVOLUÇÃO DO CONCEITO DE CODEPENDÊNCIA
- Plinio de P. S. Benfica.
- 2 de ago. de 2016
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A co-dependência segundo Ballone (2008) passa a ser definida como doença por volta das décadas de 70 e 80 sendo no primeiro momento associada somente a familiares de dependentes químicos. Posteriormente passa a ser utilizada para qualquer quadro de dependência (não química), bem como para transtornos graves de personalidade e de conduta. Desde a criação do conceito de co-dependência a família é colocada em uma variedade de posições, que vão desde um mero papel inexpressivo diante do protagonismo do dependente, até o extremo oposto, em um papel principal onde o dependente atua somente como um sintoma da família. Antes do nascimento da teoria da co-dependência (segundo Write 2003 e Savage 2003), a família era tida como um incômodo, haja visto que, segundo os autores, à época, as esposas dos alcóolicos sempre estavam a postos para sabotar o tratamento e reassumir o controle. Derivando-se daí a única intervenção possível, que se resumia a conseguir um acordo (por escrito) de não ingerência da família na recuperação do alcoólico. Para Ballone (2008), a teoria da co-dependência, inaugura a presença dos familiares no contexto do tratamento da dependência química. Antes dela a família era tida como uma espécie de “cenário de fundo” dos comportamentos disfuncionais do dependente.
Segundo Ortiz (1998) o antecedente mais antigo da teoria da co-dependência vem do termo co-alcoolismo cunhado dentro de Alcoólicos Anônimos. O AA, apesar de ter sido fundado em 1935, volta seu olhar para a família do alcoólico somente em 1951 através de Lois Wilson, esposa de Bill Wilson (co-fundador de AA) que juntamente com outras esposas de alcoólicos em recuperação fundam o grupo Al-ANÓN. Este grupo, baseia-se na percepção de que parentes, até então principalmente esposas de alcoólicos sofriam de uma enfermidade semelhante ao alcoolismo do marido. A partir disto, a época, toda a interpretação feita do familiar dos alcoólicos seria uma reprodução da relação do dependente com a substância (semelhante ao constructo de alcoólicos anônimos). Ou seja, o familiar relaciona-se com o dependente de uma forma obsessiva, que vem a ser similar a forma que este se relaciona com a substância, esta forma de adaptação fica clara ao compararmos o primeiro passo da literatura de AA, com o seu equivalente na literatura de AL-ANON;
PRIMEIRO PASSO DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS.
“Admitimos que éramos impotentes perante o álcool - que tínhamos perdido o domínio sobre nossas vidas”.
PRIMEIRO PASSO DE AL-ANON
“Admitimos que éramos impotentes perante o álcool - que tínhamos perdido o domínio sobre nossas vidas”.
Como descrito acima, e partindo desta premissa, entende-se que se o problema básico é o mesmo, a solução também o é. Assim, da mesma forma que os grupos de AA (2010) seguem os princípios dos 12 passos para a recuperação os de Al-Anon (2010) também o fazem, de maneira adaptada. Segundo os paradigmas da co-dependência, a recuperação é uma atividade individual, que depende única e exclusivamente do empenho da pessoa. Como descrita na literatura oficial dos grupos familiares ALANON do Brasil: “Os familiares de alcoólicos que enfrentam as reuniões de ALANON e ALATEEN, percebem que a base para a recuperação começa quando ouvem os “3 cs”: · Você não causou o alcoolismo, · Você não pode controla-lo, · Você não pode curá-lo. A simples troca de experiências, que ocorre nas reuniões, muitas vezes coloca a preocupação com o alcoólico no seu verdadeiro lugar e possibilita oportunidades para uma nova maneira de pensar. ” Portanto desde o seu início o Al-Anon passa a ser uma entidade independente de AA. Seus membros reúnem-se e se recuperam separadamente dos alcoólicos, não havendo atividades em conjunto. Com a expansão do fenômeno dos grupos Anônimos, praticamente toda irmandade de 12 passos que lida com abuso de substâncias tem um correspondente voltado para seus familiares. Sendo assim, Alcoólicos Anônimos e Al-Anon, Narcóticos Anônimos e Nar-Anon, Cocaine Anonymous e Co-Anon family groups. Dentro da própria teoria da co-dependência o entendimento do papel da família passa por várias modificações, que vão desde as ideias articuladas na década de 80 na qual o pensamento dominante era de que se tratava somente de um comportamento de reação ao dependente químico, segundo Dear (1997) uma reação de stress proveniente da convivência com o alcoólico. E que, portanto, seus familiares possuíam primariamente uma personalidade “normal” com ausência dos sintomas característicos da co-dependência. Estes sintomas só se desenvolveriam mais tarde, mediante a exposição ao stress de convivência a longo prazo com o dependente. Logo a seguir a partir da década de 80, em contraponto, ganha corpo a ideia de que o co-dependente (segundo Melody Beatti 1997), através de seus comportamentos sintomáticos como por exemplo a manipulação o controle e a negação, buscava através destes, uma forma de reproduzir as relações de sua família disfuncional de origem, sendo desta forma, estes comportamentos um meio de definir a si mesmo. Ideia esta, ainda segundo Beatti (1997), corroborada pelo alto percentual de co-dependentes filhas ou filhos de pais ou mães alcoólatras, por tanto, nesta forma de entender, o comportamento característico não seria uma reação adaptativa em resposta a um comportamento disfuncional, seriam sim, os co-dependentes possuidores destas características mesmo antes de conviverem com o dependente. Movidos por esta premissa, o dependente passa a ser não mais o indivíduo que desenvolve os sintomas por conviver com o dependente. Mas que teria sido criado em uma família com dependência química ou qualquer outro sistema familiar disfuncional (jogo patológico, doenças crônicas etc..) . Na década de 90, Griffith Edwards, questiona estes paradigmas anteriores os quais denomina de formas padronizadas. E afirma que a co-dependência pode aparecer das duas maneiras (de forma primária ou não), sendo que na maioria dos casos (no caso específico de usuários de álcool) é muito mais uma característica reativa. Ao entender que nenhuma das interpretações substitui por completo a anterior e que convivem juntas até os dias de hoje, o que ocorre com o concito de co-dependência é uma repetição da discussão da dependência química em relação a ser uma patologia primária, um sintoma secundário ou cada caso é um caso. Outra característica da teoria da codependencia segundo Dear (1997), Figlie (2002), é sua abundante literatura de auto-ajuda, em contraponto a pouca produção de trabalhos científicos. Atualmente a teoria da co-dependência é bastante influenciada pela teoria sistêmica. Notadamente há um movimento no sentido de mudar a visão individual e linear (teoria da co-dependência) para uma visão da família como um sistema (teoria sistêmica), e, portanto, mais circular. Mas ainda hoje segundo Figlie (2002), as intervenções familiares baseadas neste modelo são muito comuns em programas de tratamento em dependência química e produzem forte impacto na opinião pública.
Apesar da codependencia inexplicavelmente não constar nos manuais que categorizam e classificam as doenças (CID e DSM), praticamente todos os tratamentos de adicção entendem a necessidade de se trabalhar este tipo de comportamento. Esta ausência de reconhecimento oficial impossibilita que estas pessoas tenham os benefícios legais, tais como, atestados, licenças, tratamentos pagos por planos de saúde (púbicos ou privados), aposentadoria e outros. No lugar do diagnóstico de codependencia são comumente registrados depressão, transtornos de ansiedade, estafa. Enfim, na atual situação, há socialmente reproduzida o conhecido pacto de silencio característico da relação entre o adicto e o codependente.
Hoje existe uma forte pressão internacional para que a codependencia seja reconhecida oficialmente como uma enfermidade.
Este artigo é parte do trabalho do autor “Uma perspectiva baseada no paradigma do dilema do prisioneiro iterado para simulação de relacionamentos entre dependentes químicos e suas famílias”.












































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