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TUDO PARECE DIFÍCIL, ATÉ QUE SEJA FEITO


Porque algumas pessoas não conseguem intervir corretamente na adição ou na codependencia de seus familiares? A maioria das famílias sabem que precisam agir, entretanto, não conseguem fazer nada que funcione o suficiente.

Entre os principais motivos que levam as famílias a imobilidade, certamente, em primeiro lugar está a “ignorância por excesso de informações”. É importante sublinhar que ela não acontece simplesmente pela desinformação. Na verdade, ela é fruto da falta de segurança das informações. Ocorre que na busca pela solução, a família escuta várias opiniões que apesar de “bem-intencionadas” podem ser conflitantes e confusas e na maioria das vezes estão desalinhadas com bons resultados. Não saber o que fazer, quase sempre é resultado da “ignorância por excesso de informações”. Quando várias opções tem o mesmo peso, elas passam a ser igualmente prioritárias e a imobilidade acontece. Ter várias alternativas não valem de nada se quem vai decidir não possui informações seguras para escolher um caminho. O caso mais comum deste tipo, acontece quando a família pensa que o doente precisa “querer” para iniciar um tratamento. Supostamente “enquanto ele não quiser não vai funcionar” (este tipo de informação é apoiado pelo senso comum) este é o tipo de informação que causa uma relação perversa onde a ação da família depende da prévia vontade do doente se recuperar. Enquanto estas famílias estão presas nesta espera, várias pesquisas demonstram que os adictos que são levados involuntariamente para tratamento tem resultados praticamente idênticos aos que vão voluntariamente.

O medo é outro fator que leva a inércia. Tanto a adicção quanto a codependencia são doenças que tem um curso progressivo. Isto significa que quanto mais o tempo passa, mais complexa fica a intervenção, ou seja, aumenta a distância entre o estado atual de adoecimento e o estado desejado (de recuperação), e, consequentemente a família precisará fazer mais esforço para alcançar este efeito desejado. O tempo eleva tanto a complexidade quanto os riscos da intervenção. Estamos falando de riscos em intervir e de riscos em não intervir no problema, pois ambos aumentam. Infelizmente as famílias adoecidas tem a tendência de ver somente os riscos de intervir. Esta percepção “seletiva” de riscos, por sua vez, torna a ação para a mudança uma opção menos atraente. Isto quer dizer que a progressão do adoecimento aumenta tanto os riscos de intervir, quanto os de não intervir que por sua vez também aumenta a resistência da família. Este é um fenômeno conhecido como aversão ao risco. Ocorre que, de forma geral, as intervenções com maiores chances de produzir melhores resultados estão atreladas a riscos que erroneamente são percebidos como maiores do que não fazer nada. Evitar correr riscos é uma característica humana que pode ser intensificada ao extremo no caso de famílias com adicção e codependencia.

Outras famílias sabem o que fazer e tem coragem para agir, entretanto, o que precisa ser feito está fora de seu alcance. As vezes por problemas financeiros, as vezes por questões de saúde ou porque não há tratamentos disponíveis. Também existem os familiares que não agem porque sua ação depende de outra ou de outras pessoas da própria família. A muito já se sabe que famílias organizadas, ou seja, famílias que “falam a mesma língua”, que se alinham para intervir na doença, produzem melhores soluções. Não é exagero dizer que, nestes casos, sem organização não há resultados. Famílias bem-intencionadas e desorganizadas produzem os mesmos efeitos que pessoas estranhas desinteressadas. Isto ocorre porque a família é um grupo com indivíduos interdependentes, inclusive e principalmente na hora de intervir na vida de um de seus membros. A organização familiar não somente é a primeira coisa a ser feita, é também a mais importante. Em relação a tomar uma atitude para intervir na adicção ou na codependencia os familiares podem ser divididos em duas formas de pensar: O familiar que valoriza mais a recuperação da pessoa doente. O familiar que valoriza mais a sua relação com o doente.As pessoas do primeiro caso têm a aversão ao risco. Eles não querem correr o risco de sofrer as consequências decorrentes do doente não entrar em recuperação. É a lucidez em relação aos prejuízos diretamente relacionados com a adicção e a dependência que fazem com que esta pessoa fique imune a manipulações e chantagens emocionais do doente.No segundo caso (o familiar que valoriza mais a sua relação com o doente), também existe a aversão ao risco. Ela vem do medo de correr o risco de perder (ou comprometer) o relacionamento com o doente. Conduzidos por este medo, o familiar dirige suas atitudes reagindo a ele. Ele evita intervir porque o medo de mudar o que o doente pensa e sente em sua relação, supera o medo das consequências da doença da adição ou da codependencia. Estas pessoas, em sua maioria agem assim não porque são desinformadas, mas porque nutrem fantasias a respeito de seus relacionamentos com o doente. Esta forma de pensar gera um conflito interno. Para lidar com isto, alguns familiares tem a fantasia de que poderão encontrar uma forma de colocar a pessoa que precisa de ajuda em tratamento sem ter que mudar o relacionamento com ela. É este tipo de “solução” que produz um ambiente familiar propicio para intervenções pouco eficazes. Pessoas que valorizam mais a recuperação e pessoas que valorizam mais o relacionamento com o adicto coexistem na mesma família, isto é bastante comum. O fracasso não é somente fruto exclusivamente de uma forma de pensar, mas evidentemente e principalmente da falta de consenso.De onde vem este medo de correr riscos? Em primeiro lugar o medo de correr riscos para chegar a um resultado desejado é diferente do medo de correr riscos de perder. O problema é que o pensamento do familiar está mais focado nos riscos de perder, mesmo que estes sejam equivalentes aos de ganhar. Isto é mais visível nos momentos em que o familiar tem que decidir intervir na doença de um outro familiar. Estas intervenções acontecem ou deixam de acontecer pelo que o familiar entende como perdas e ganhos. É claro, o que é perda e o que é ganho é uma definição pessoal e relativa, ou seja, o indivíduo estabelece um ponto de referência e em seguida são considerados ganhos os resultados que ultrapassem este ponto. Todavia, acontece que nas famílias com adicção a percepção destes pontos de referência está alterado.Um outro aspecto que eu gostaria de expor é o da “irracionalidade estável”. Normalmente se uma pessoa está conseguindo uma vantagem, ou seja, está levando a cabo uma intervenção de sucesso, onde prevalecem os ganhos, estas pessoas tornam-se avessas aos riscos, como diz o ditado “em time que está ganhando não se mexe”. Por outro lado, como era de se esperar, e em cenários com perdas estas mesmas pessoas tornam-se propensas e mais abertas a aceitar os riscos da mudança (em outras palavras se o time está perdendo é mais fácil decidir pela mudança). Curiosamente, não é o que ocorre com as famílias com adicção e codependencia. Independentemente do cenário, elas são sempre avessas ao risco. É perceptível que a importância e o foco dado às perdas é muito maior que aos ganhos. Elas, por piores que sejam os resultados, sempre agem como se “o time estivesse ganhando”. Por fim, outra característica da doença do familiar para não lidar com a mudança é a “inversão de percepção”. Isto acontece da seguinte forma. Quando uma intervenção é apresentada com grandes chances de produzir ganhos, o familiar (doente) reinterpreta inversamente como uma perda. Entendida desta forma, por sua vez, leva a mais resistência de sua parte. Esta inversão acontece porque, nos momentos de decisão, ao analisar as opções, estas pessoas passam a atribuir muita importância a pequenas probabilidades de perda e pouca importância a grandes probabilidades de ganhos. Olhando a situação por este prisma, se pode concluir que a recuperação fundamentalmente está condicionada em o familiar conseguir controlar a ilusão de não correr riscos pelo medo de perder, e em seguida substitui-la pela noção de que é inevitável correr riscos para conseguir ganhar. Talvez a primeira coisa que deva ser quebrada é a ilusão da coragem. Para rever estes conceitos é possível que seja necessário até mesmo questionar se a coragem existe, ou se na verdade o que chamamos de coragem não é apenas a capacidade de controlar os nossos medos.


 
 
 

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