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MARIA NO QUARTO PRETO E BRANCO


Em 1986 um filosofo chamado *Frank Jackson criou uma história para demonstrar como a consciência tem informações específicas, que só podem ser conhecidos através da experiência.

A história é a seguinte. Maria nasceu e foi criada dentro de um espaço físico totalmente pintado de preto e branco, tudo ali, incluindo suas roupas e livros eram dessas duas cores. O único contato com o mundo exterior era feito por uma tela de televisão (que também era em preto e branco). Durante o processo de sua educação, foi lhe ensinado tudo o que havia de relevante sobre as cores. Então ela aprendeu sobre o processo químico que produz as cores, a neurofisiologia da visão, as cores pela perspectiva da física, da ótica e assim por diante. O resultado é que ela passou a conhecer tudo o que há de importante sobre as cores na perspectiva da ciência física, química e biológica. Finalmente, um dia, pela primeira vez, é dado a Maria um tomate. No mesmo instante ela pensa “isto é um tomate? ”

O que ela não sabia que somente descobriu no momento em que viu o tomate pela primeira vez na vida? Podemos entender que:

Maria conhecia todos os fatos físicos.

Maria não conhecia todos os fatos.

Portanto, os fatos formalmente estudados não esgotam todos os fatos.

Isto é intrigante na medida que ela sabia tudo sobre cores, mas não sabia “ver coisas coloridas”. Eis aí o grande paradoxo, como pode Maria saber tudo sobre algo e ainda assim não saber “nada”. A história tenta mostrar que uma pessoa pode ter uma grande quantidade de informações sobre um assunto e ao mesmo tempo permanecer ignorante em relação a particularidades sobre o mesmo assunto.

O acesso do indivíduo a muitas informações da recuperação estão condicionadas a ele manter um contato consciente com elas através de uma grande experiência chamada “estilo de vida em recuperação”, com todos os riscos e facilidades que isto possa oferecer. Estas informações vivenciadas não podem ser enviadas por e-mail, WhatsApp, descritas em um texto ou mesmo verbalizadas. Isto porque elas não são totalmente de caráter físico ou material. Por isso são mais difíceis de serem medidas ou explicadas.

Pode-se dizer que a forma como o indivíduo se relaciona com as informações sobre sua vida em recuperação sempre estará incompleta até que esteja disposto a passar pelo teste da realidade. Isto parece óbvio, entretanto, pode significar a diferença entre estar feliz com a recuperação que se tem, e estar feliz na recuperação que se tem. Uma pessoa pode ser feliz com as conjecturas que faz sobre a recuperação, isto é teoria de recuperação. Mas esta mesma pessoa conseguirá ser feliz a partir do contato com todas as informações produzidas pela experiência de viver em recuperação?

Da mesma forma como Maria “não sabia de tudo” “mesmo sabendo tudo”, a recuperação tem informações que estão além do que está registrado nas literaturas da psiquiatria, psicologia ou de grupos anônimos, ou mesmo no que possa ser verbalmente descrito. Boa parte da recuperação essencialmente existe através de se viver experiências. A informação escrita ou descrita verbalmente de forma isolada sempre será uma redução da experiência da recuperação. Somente a exposição a vivencia de uma experiência “pode colorir” as ideias que habitam nossos pensamentos. Em outras palavras, o quarto preto e branco somos nós mesmos. E que as informações que colorem a vida estão situadas após a exposição ao externo, que em última análise são o céu e o inferno da vida fora de nós mesmos.O conhecimento sobre viver em recuperação pode evoluir para se tornar de fato em recuperação somente quando está ancorado na experiência. De todas as experiências, boas ou ruins, sem exceção, coisas que estão fora de nós que modificam o que está dentro de nós. Do gosto do café e da bolacha do grupo, o tom das vozes dos companheiros quando fazem a oração da serenidade. A experiência das escolhas, das coisas que temos que abrir mão para frequentar a reunião e manter a recuperação, a experiência de ter e de ser um padrinho, a experiência de servir ao grupo. O conjunto dessas experiências formam uma experiência maior. Por isso não há duas recuperações exatamente iguais. Isto é bom porque podemos nos inspirar nas experiências de recuperação dos outros. Somente a experiência cria um tipo especial de Reflexão que está relacionada com ter consciência. Ela desenvolve a habilidade de se pensar sobre o próprio pensamento. Entre outras, a reflexão sobre o que penso a respeito da amizade, a busca pela fé e a as dúvidas, de lidar com a vontade de ceder as tentações. As pessoas conseguem evoluir de um simples pensamento para a consciência somente quando passam por uma experiência modificadora. Com isso, melhoramos a qualidade do que conhecemos porque completamos o entendimento das coisas. Então, também é possível imaginar que experimentamos “sair do quarto preto e branco” para algumas coisas e para outras não. Por exemplo, ao receber apoio de um padrinho a pessoa pode ter a ideia do que é ser um padrinho, mas, de fato saberá ser um padrinho quando passar pela experiência de ter um afilhado. As experiências pelas quais podemos passar podem ter início, mas não tem fim. Uma das coisas importantes da história de Maria é que ela traz a ideia de que “sempre a algo que não sabemos sobre aquilo que já sabemos”. Porque realmente sempre “mais será revelado”. Sem as janelas abertas para a luz vinda da experiência, nossa mente permanece como um quarto preto e branco. O que mais podemos aprender com a história de Maria? Em primeiro lugar, Maria antes de ter o contato com o tomate possuía um tipo especial de ignorância. Uma ignorância que é mais difícil de ser identificada. Isto fica claro se imaginarmos que ao ver o tomate Maria supõe que vê algo vermelho, mas não sabe que cor é, afinal ela não tem um parâmetro para comparar. E a pergunta por trás disso é, como uma pessoa sabe que precisa de algo, se não sente falta? Mais uma vez a resposta está na experiência, ou seja, experimentando. Provavelmente pessoas que precisam de recuperação não sentem falta desta, até a terem experimentado. Somente após a experiência é que terão a consciência do que precisam.A historia de Maria também nos ensina outra coisa. Antes de ver o tomate ela poderia até imaginar ou visualizar a experiência de ver a cor vermelha. Mas de fato isto seria sempre incompleto, porque ela ainda não sabe o que é a experiência de ver o vermelho, com todas suas características qualitativas. Ela, no momento que viu o tomate pode perguntar a si mesma, "é isso o que eu gostaria de sentir ao ver o vermelho?". Pois bem, o fato de uma pessoa não se expor as experiências gera expectativas que podem ser irrealistas, podem ser pessimistas ou otimistas, mas sempre serão irrealistas. Certamente boa parte do que causa as recaídas de adictos e de familiares estão relacionadas a falta da experimentação mais profunda de um estilo de vida em recuperação. São pessoas que vão ao grupo mas não praticam os 12 passos, pessoas que fazem apenas o primeiro passo, pessoas que não tem padrinho ou que os tem sem utiliza-los, e assim por diante. Pelo fato de não passarem plenamente pela experiência criam fantasias e frustrações que aliadas a suas vontades as levam a desistência e a recaída.Outro ensinamento de Maria ocorre no momento que ela descobre que a coisa que está olhando tem a cor vermelha. Agora ela sabe que estas características são inerentes a experiência de ver a cor vermelha. Nesta fase ela vai confrontar suas expectativas, criando frustrações e surpresas. Ela agora sabe o que é para ela ver algo vermelho. Neste ponto ela se une um pouco mais a humanidade, porque descobre que as outras pessoas também devem sentir algo semelhante ao passarem pela mesma experiência. É o surgimento da empatia, então a empatia tem a ver com a qualidade daquilo que tivemos experiência. Não seria exagero afirmar que a antipatia não está relacionada diretamente com o desconforto da experiência,como geralmente pensamos, e sim com a falta de aprofundamento nela, ou em outras palavras porque não pensamos sobre aquilo que pensamos. * Frank Cameron Jackson nasceu na Austrália em 1943. É filosofo e dá aulas na Universidade Nacional da Austrália. Seu trabalho foca principalmente a filosofia da mente, a epistemologia, a metafísica e a meta-ética. Outra coisa importante, se Maria sabe todas as informações físicas sobre as cores, e se ainda assim, após ver o tomate, passou a conhecer mais, é porque havia deixado outras informações de fora. Portanto, ela descobre a dimensão de sua própria ignorância. Até então ela não sabia que não sabia. Passar pela experiência da recuperação leva a esta condição que nutre e está ligada a humildade. Isto mostra que se recuperar não é uma questão sobre o que a pessoa sabe ou sobre como ela pode adquirir conhecimento, mas principalmente sobre o que ela não sabe que não sabe. É conhecer de novo, de uma forma diferente aquilo que já se sabe. Em outras palavras é reconhecer. Neste ponto, ela entre outras coisas, poderá conhecer o que já conhecia, agora utilizando a perspectiva da humildade.O conhecimento que Maria tinha era o conhecimento sobre as experiências dos outros, e não sobre a sua própria. Antes do “tomate”, ela não poderia ter conhecido fatos sobre sua experiência de vermelho, pois não havia tais fatos para conhecer, haja visto que não havia experiência. Depois que ela passou pela experiência as coisas mudaram. O que esta história tenta provar? Maria representa uma das várias faces doo “orgulho” humano, aquele tipo de orgulho primitivo que faz previsões e produz explicações para tentar viver atravéz delas, sem que seja preciso pagar o preço pela sabedoria que só consegue quem vive a experiência na plenitude. Este tipo de presunção impede que a pessoa passe pelo processo de mudança, ele é principalmente baseado em uma visão construida por outras pessoas que apesar de serem boas, não servem por que não podem substituir nossa própria experiência. Por isso, Maria nada sabia para além do conhecimento das cores pela experiência dos outros. A historia tenta mostrar que mesmo que outras pessoas falem e expliquem assuntos sobre a recuperação, mesmo que a ciência explique todos os fatos físicos sobre a adicção, mesmo que os espiritualistas descrevam suas doutrinas, tudo ainda será precário, porque sempre existirão algumas coisas que serão deixadas para que o indivíduo entenda através de sua própria experiência.

- * Frank Cameron Jackson nasceu na Austrália em 1943. É filosofo e dá aulas na Universidade Nacional da Austrália. Seu trabalho foca principalmente a filosofia da mente, a epistemologia, a metafísica e a meta-ética.


 
 
 

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